Jose Carlos Laranjeira Marques, ou simplesmente
"Carlinhos" - como era carinhosamente chamado por seus familiares - foi um ator, dublador, modelo e cantor brasileiro. Natural de Santos - SP e caçula de uma família de 6 irmãos, pôde, por intermédio da dublagem, deixar cravado nos ouvidos das crianças dos anos 80 o sinônimo de herói, em sua maioria, de olhos puxados.
Nasceu em 10/07/1956, e seu trabalho chegou até mim em meados dos anos 80, por intermédio das tão aclamadas séries japonesas importadas pela
Everest Video e dubladas na
Álamo. Já em 1986, deu vida ao
Boomerman, o amigo do
Jaspion, interpretando um papel não tão grande, mas digno de admiração. Fez também algumas pontas em
Changeman, mas foi na pele do Francês
Pierre Bonaparte, do
Comando Triplo Dolbuck, que o trabalho do Laranjeira teve mais destaque.


Em seguida, cerca de pouco mais de um ano, foi escalado pelo inigualável Líbero Miguel para co-estrelar mais uma série nipônica, ao lado de jovens talentos que vinham desabrochando nesta época, como Francisco Brêtas e Christina Rodrigues; e assim, ao lado de Lúcia Helena Azevedo e Eduardo Camarão, surgia o Comando Estelar Flashman, série que foi lançada em DVD no finzinho de 2010, e já abordada neste blog.
Com o boom desse nicho de seriado na TV daquela época, mais séries tokusatsu foram chegando, e Laranjeira disseminando seu talento. Mas aqui cabe um parêntese: Em 1989, a Rede Globo, que não tinha um histórico de proximidade com produções oriundas do Japão, estréia um anime chamado Zillion, exibido aos Domingos daquele ano. De um momento para outro, a animação cai no agrado dos "baixinhos", e a qualidade da animação - aliada ao carisma de seu protagonista J.J. - consagram de vez o casamento perfeito entre personagem/ dublador. E quem estrelava o seriado? Sim, o Laranjeira.


Logo, chegaram mais 2 séries na tela da Manchete, desta vez por intermédio de um novo distribuidor, a Top Tape: Jiraiya e Lion Man. Novamente o ator participou ativamente da dublagem, fazendo a voz de um alidado do Ninja Olimpíada e algumas pontas e vozeirios no seriado do Homem Leão. Mas o destino reservara à ele um novo protagonista na próxima série a chegar no Brasil: Jiban, o Policial de Aço, uma espécie de "Robocop" japonês que subitamente caiu no agrado das crianças e marmajos que se deliciavam em frente a telinha da Manchete.


Mais séries desembarcavam, e Laranjeira sempre estava por lá, seja em pequenas pontas (como em Machineman, Goggle V e Metalder) ou personagens coadjuvantes, como o Capitão Gyaban no seriado Sharivan. Nas 3 últimas séries dessa época, co-estrelou novamente Maskman, fazendo o Kênta/ Black Mask, e fez pontas em Spielvan e Black Kamen Rider.


Depois disso, a febre foi cessando, e os seriados foram levados em "banho Maria" na TV, e aos poucos desapareceram. E com eles, a voz do Carlos. Eu, que já tinha meus 12 anos, continuava vendo programas dublados, a maioria pela própria Álamo, local onde o profissional "reinava", mas sentia falta daquele timbre marcante. Vi Doug, Mundo de Bobby, Homem Aranha, Mortal Kombat, Beakman, Street Fighter, os (muitos) animes da Gota Mágica, dentre outros programas, e nada de sua voz.
Mais pra frente, já no final dos anos 90, tive a oportunidade de acessar a internet pela primeira vez. Dentre outros assuntos, dublagem foi um dos que pesquisei, e assim, cheguei a triste informação de que esse dublador já havia falecido. Fiquei triste, mas jamais me contentei com essa informação "vaga". No entanto, naquele momento, nada poderia ser feito.
Muitos anos se passaram, e desde o final de 2006, quando botei na cabeça esse meu projeto individual de pesquisa sobre dublagem, pude amadurecer um pouco esta idéia. Foi então que cheguei onde queria, depois de muito, muito pesquisar.
Encontrei ninguém menos que a Nancy Marques, a sobrinha do Carlinhos. E foi aí que consegui a declaração MARAVILHOSA que tenho a honra de compartilhar com vocês, caros leitores: abrindo as aspas para contar - por intemédio da sobrinha e seus familiares - a vibrante história deste profissional ímpar:
“Meu tio percorreu um longo caminho, nem sempre fácil, mas que lhe permitiu dizer: ”VIVI”.
Ele começou sua carreira ainda muito novo, em meados dos anos 60 como cantor, na Rádio Atlântica, fazendo o teatrinho de brinquedo, ao lado de outro menino do morro, Luiz Américo.O passo seguinte foi a televisão, os programas de Calouros. Meu tio participava de todos e chegava até a final, mas então era desclassificado por ordem de superiores, pois naquele momento não era interessante um desconhecido ser o grande vencedor, assim, sempre tinha algo que o prejudicava no final das contas.
Ele sempre impressionava os maestros porque tinha muita facilidade de cantar qualquer ritmo, mesmo nunca tendo feito aulas de canto. Numa dessas apresentações, Canarinho que na época fazia o Sítio do Pica-Pau Amarelo, viu e gostou. Ele tinha um programa na extinta TV Excelsior - Canal 9, e meu tio foi participar do quadro de calouros (pela minha pesquisa o único que soube aproveitar o talento dele foi justamente o Canarinho), passou por todas as eliminatórias e saiu finalmente vencedor. Após essa vitória, novos convites apareceram, entre eles para fazer “Essa Gente Inocente”, no mesmo canal 9.
Nesta época, Agnaldo Rayol - no auge da carreira – era o Rei da Voz, (pelo que pude descobrir ele tinha um programa na Record, viu meu tio e pediu para convidarem-no para participar do concurso o Rei da Voz Infantil. Meu tio cantou a música “A Tua Voz”, do próprio Rayol. Em determinado momento, Agnaldo entrou em cena, pegou-o no colo, e sob aplausos da platéia, cantaram juntos. Quando ele voltou pro morro, todos queriam dar os parabéns. Ele era realmente um sucesso!!
Em 1970, começou a fazer teatro amador, primeiro no colégio, depois no movimento de Ação Secundarista. Decidido que era o que queria para si próprio, voltou para São Paulo afim de se profissionalizar. Fez teste e foi aprovado para trabalhar na peça “Lambe Beiço e Seu Criado Cata Farelo”, dirigida por Amilton Monteiro, e que tinha no elenco atores da consagrada TV Tupi. Atuou também nas peças “Flauta Mágica”, dirigida por Kleber Afonso, “A Verdadeira História de Pinocchio" (onde obteve a indicação para o Prêmio Revelação do Ano), “A Bela e a Fera” com Laura Cardoso no elenco (em 1987), e um ano antes fez "Evita".
Então, em 1976 ele começou a fazer comerciais para TV, conseguindo projeção com o comercial do Sorvete Copa de Ouro. Neste período, entre 1976 até 1979 fez mais de 70 comerciais. Logo em seguida procurou Alexandre Labianco, mas naquele momento não havia nenhum trabalho, só que pouco tempo depois, como Alexandre já sabia do talento dele, o convidou para participar da telenovela Roda de Fogo, na Tupi. Assim, com a graça de Deus, novas portas começaram a se abrir, e acabou fazendo “O Direito de Nascer”, onde interpretou D. Jorge Luiz Bel Monte, quando jovem. Atuou ao lado de Beth Goulart, Susy Camacho, dentre outros. Paralelamente, fez no teatro “Sexo Furado” (também de Kleber Afonso), com Silvio Rocha e Liza Negri. Nas telenovelas, o coordenador Carlos Zara pretendia criar uma dupla romântica formada pelo Laranjeira e Susy Camacho, mas acabou não acontecendo, uma vez que Zara fora para a Rede Globo, e nesta época ele ficou desempregado, voltando para Santos. Um dia, Claudir Guimarães, o convidou para fazer uma remontagem de Pinocchio, e nesta mesma época outra telenovela, desta vez na TVS, “Anjo Maldito”.
Nas dublagens ele era muito conhecido por sua voz calma e suave, e fez inúmeros trabalhos como dublador, mas ficou realmente conhecido nos seriados japoneses, os chamados tokusatsu. Pegou a “febre” já começo, em 1986, fazendo Jaspion (Boomerman), Flashman (Go/ Blue Flash), Jiraya (Yanin Spyker), Naoto Tumura/ Jiban, Maskman (Kenta/Black Mask) e algumas pontas nos outros seriados do gênero. Nos animes deste período ele também gravava: fez a voz do protagonista J.J. de Zillion e o Pierre, no Comando Triplo Dolbuck.
Falam que ele fez o Raphael em As Tartarugas Ninjas - O FILME, mas não sei se esta informação é verídica.
Meu tio era um batalhador e adorava o que fazia, e tudo o que se propunha a fazer, era com imenso e intenso amor. Um eterno apaixonado pelas artes, seja ela em qual ramificação fosse.
Quero agradecer em nome de toda minha família, a todos os fãs do meu tio, e sei que onde quer que ele esteja, ele se sentirá muito feliz em saber que é lembrado ainda hoje por todos. Foi muito bom ter alguém como ele em nossas vidas, só quem o conheceu de verdade sabe o que foi cada sorriso, cada brincadeira, cada abraço, mas infelizmente não o temos mais aqui, e o que nos conforta desde sua partida é saber que muitas e muitas pessoas o admiram tanto quanto nós. Nossa família tem uma estrela, que mesmo longe continua a brilhar intensamente.
Muito obrigada Ivan, por você se esforçar para manter viva a memória do meu Tio Carlos Laranjeira.”
E como um artista nato e dono de uma voz linda, é claro que também foi cantor. Chegou a gravar um disco, com um estilo pop romântico no auge da carreira, lançado em 1991, mas devido ao seu falecimento, no dia 15/05/1993, não pode divulgá-lo e nem desenvolver nenhum tipo de trabalho em cima do álbum. Confiram a capa do Vinil e a lista de músicas contidas no lançamento:

- Bala de Hortelã;
- Coca e Poesia;
- Como uma Luz;
- Debaixo das Cobertas;
- Eletrizando;
- Luzes Neonescas;
- Rock B - à - Bá;
- Sinceramente.
Ouça um
pot-pourri com um trecho de cada canção clicando
aqui!
Veja a interpretação de
Carlos Laranjeira na série Jiban, dialogando com sua inseparável amiga
Lúcia Helena Azevedo:
Quero deixar registrados o meu ETERNO agradecimento a Nancy, que se propôs a levantar essas informações com seus tios da família Laranjeira, para que eu pudesse realizar esse sonho em saber e poder contar um pouquinho mais sobre a vida e a carreira desse marcante profissional que foi o Carlos Laranjeira. Sucesso eterno aí no Céu, Carlinhos.