
Não era desta forma que eu planejava redigir essa postagem, mas essa informação me pegou totalmente desprevinido. Semana passada fiquei sabendo do falecimento precoce do grande
Carlos Alberto Ferreira do Amaral, aos 63 anos de idade.
Nascido em 02/05/1946 e natural de Fortaleza - CE, veio para SP ainda pequeno, com seus pais. Começou sua carreira artística no início da juventude, aos 14 anos, trabalhando como cantor de boates. Mais pra frente, formou-se Jornalista e começou a trabalhar como radialista na Rádio Tupi. Daí para frente, até chegar na dublagem, passou pelo caminho natural na vida de um artista, conforme as portas foram se abrindo e oportunidades foram aparecendo.
Seu trabalho chegou até mim em 1988, como narrador substituto do grande e saudoso
Francisco Borges, no seriado
Flashman, dirigido pelo inigualável
Líbero Miguel. Daí pra frente, todas as séries japonesas, com exceção da última, que foi
Black Kamen Rider, ele narrou, e muitas delas também dirigiu.
Metalder, protagonizado por
Tatá Guarnieri e
Christina Rodrigues foi um de seus trabalhos na direção. Seu timbre de voz, forte e grave, contava as aventuras dos heróis japoneses no auge deste nicho de produção na TV brasileira, no finzinho dos anos 80 e comecinho dos anos 90.

Após o fim da febre, em 1992, sua voz praticamente desapareceu do cenário da dublagem. Até este ano, vários filmes feitos na
Álamo principalmente, mas também em outros estúdios contavam com sua participação, seja num pequeno personagem, numa narração, ou num protagonista/ antagonista. E assim como notei o desaparecimento do
Carlos Laranjeira da arte, também sempre indaguei por onde andaria o Amaral.
Dezoito anos se passaram, e ninguém mais sabia do paradeiro deste profissional. Muitos o davam como falecido, como faziam com o
José Carlos Guerra, que está firme e forte de saúde, e o melhor: dublando.
Em 2009, um rapaz postou na
comunidade dedicada ao dublador esta foto que coloquei no post, dizendo que ele estava bem, na ativa, e trabalhando numa Rádio da cidade de
São José dos Campos. Fiquei extremamente feliz, e saí em busca de uma forma de contatá-lo, pois o trabalho dele marcou de maneira positiva minha infância e adolescência. Não demorou muito e consegui o seu telefone. E liguei.
Confesso, sem vergonha alguma, que fiquei muito nervoso ao discar seu número, pois no fundo eu relutava em acreditar que era o mesmo Amaral dos anos 80/ 90, e não fazia nem idéia de qual seria sua posição relativo à um fã de trabalhos de quase duas décadas. Mas não exitei, e mesmo nervoso e com a voz "trêmula", liguei.
Ele me atendeu com a maior boa vontade do mundo, e eu fiquei muito contente e senti uma coisa inexplicável ao ouvir sua voz depois de tantos anos. Era como se eu tivesse entrado num túnel do tempo! Conversamos por uns 20 minutos, sobre muita coisa, e peguei seu e-mail/ MSN para papearmos mais vezes.
Falei pra ele que era fã do trabalho dele, que marcou minha vida, perguntei se ele lembrava das séries japonesas, ele respondeu que "claro", e quando comentei que a
Focus Filmes estava lançando os seriados em DVD, ele ficou muito feliz e disse que "queria isso pra guardar e mostrar para os netos". Falou um pouco sobre a sua vida após o afastamento da Dublagem, e me contou que estava trabalhando naquilo que mais gostava, que era no rádio.
Assim, adicionei-o no Messenger e papeamos por umas cinco ou seis vezes. Tinha dificuldade na digitação, mas nada que atrapalhasse nossa comunicação. Maquei então de fazer uma entrevista com ele, focado na sua carreira e especialmente nos seus trabalhos em dublagem. E essa entrevista aconteceu, mas infelizmente, por um desleixo meu na época, eu parei de contatá-lo por alguns motivos pessoais, mas sonhava um dia em terminar essas perguntas. Mesmo inacabada, o teor do bate papo ficou interessante, e estou preparando esse texto para publicar no blog em breve.
Abro um parêntese inclusive pra contar que havia comentado com ele que hoje em dia os fãs - além de conhecerem - idolatram os dubladores, e que existem eventos que são alavancados somente pela aparição dos atores em público, conversando, contando fatos, relembrando, enfim, todo o cenário atual que tirou os dubladores do anonimato e literalmente os colocou na mídia. Cheguei até a indagar se ele gostaria de participar de um evento desses, tipo o
Anime Friends, e ele me respondeu que "Acho que seria legal, poderia ir sim, sem problemas." Fecho o parêntese com peso na consciência por não ter feito a conexão entre ele e os organizadores do evento prontamente.
Pois bem, passados mais de hum ano e meio desde nosso último contato, que aconteceu no dia
06/08/2009, com a confirmação de que a série
Jiban seria lançada em DVD, e que a distribuidora que importou a série nos anos 90 não tinha mais a posse das fitas que ficaram com a
Rede Manchete, automaticamente pensei nos últimos dois capítulos que a emissora nunca exibiu e que provavelmente receberiam uma nova dublagem, pra não deixar o seriado inacabado. Imaginei:
"o Amaral tem que participar disso!", e novamente fui tentar falar com ele.
Primeiramente, número de telefone não existe (desligado). Em seguida, comecei a me lembrar que havia um bom tempo que ele nunca mais aparecera on line no MSN, e nem respondia meus e-mails. Também lembrei que há mais ou menos dois meses, postaram no
Orkut perguntando se era verdade que ele havia falecido. Já comecei a me preparar pelo pior...
... e era verdade. Pouco mais de 3 meses depois que nos falamos pela última vez, no dia
19/11/2009, falecera
Carlos Alberto Amaral. Foi um choque, pois ele parecia tão bem, e de repente, 90 dias depois tinha falecido? Não me conformei. Mas assim é a vida, e esta é a única certeza que temos dela.
Nos últimos anos ele era um dos âncoras do Jornal da Manhã da
Rádio Metropolitana de São José dos Campos, também conhecida como
Rádio Eldorado. Ao lado de
Lando Brito e
Florivaldo Rocha, prestavam serviços à comunidade e se inteiravam de tudo o que acontecia na cidade, e botavam em pauta - em sua maioria - os assuntos políticos, sempre buscando alertar o cidadão das atitudes do poder público do Município.
Consegui contato com o Florivaldo, que também me atendeu com uma boa vontade de um anjo, pra falar sobre o falecimento do amigo.
"Ivan, foi um choque para todos nós, pois ele estava bem de saúde, e de uma hora pra outra foi internado e faleceu. Até hoje sentimos sua falta, e não conseguimos acreditar nisso tudo. É notável a falta que ele faz no programa, basta ouvir a rádio. Muito daquilo era característica dele", conta.
Justamente no inverno de 2009, Amaral adoeceu por causa de uma forte gripe, que atacou seus pulmões. E foi uma gripe mal curada, daquelas que não chegam a sarar e voltam com maior intensidade. Paralelo à doença "sem importância", havia o fato de que ele fumava demais. Demais mesmo. O médico já havia alertado sobre o risco do excesso do cigarro em sua vida, mas ele se negava a abandonar a nicotina. Era um fumante inveterado, incapaz de controlar seu vício. Fumava, inclusive, nos pequenos intervalos de dois à três minutos do programa, que era o suficiente pra ele se aproximar da janela do estúdio e acender mais um, conta Florivaldo.
"Ele mesmo dizia que preferia morrer do que parar de fumar. Que ele não abdicava do prazer do vício".
A gripe voltou mais forte e aliada à deficiência dos pulmões pelo excesso de uma vida inteira de um fumante, ele foi internado as pressas em São José. Deu uma leve melhorada, mas uma nova recaída o atacou. Foi transferido para a Capital, mas já sem muitas chances de sobrevivência. Faleceu de forma relâmpago, e foi cremado e sepultado imediatamente. Inclusive o próprio Florivaldo não foi avisado a tempo e não pode comparecer ao seu funeral.
Eu acompanhei por vários meses o Jornal da Manhã, só pra ouví-lo, e cheguei até a gravar um trecho do programa com a voz dos três apresentadores. Clique
aqui e ouça.
Já no começo do segundo semestre de 2009, quando papeávamos, ele havia me contado que estava se aposentando, e ia realizar um sonho de infância, o de ir morar na roça. Um dos apresentadores, o Brito, depois que ele saiu, vivia mandando recados em tom de brincadeira para ele e sua atual esposa. E numa das vezes que eu ouvi, ele disse
"Fátima, segura o Amaral com esse bendito vício do cigarro dele, senão já viu, hein?".
Foi uma grande perda. Uma pena. Quem pôde ouvir sua voz inesquecível, vai sempre se lembrar do lendário Narrador dos Tokusatsu.
Carlos Alberto do Amaral, esteja com Deus.